Desenrola 2.0: Especialista alerta que "vício" em renegociação pode prejudicar o mercado - A Folha Hoje

Desenrola 2.0: Especialista alerta que “vício” em renegociação pode prejudicar o mercado

Especialista em Economia aponta riscos do Desenrola 2.0 se tornar recorrente e impactar o FGTS.

O governo se prepara para lançar o Desenrola 2.0, uma nova fase do programa que promete renegociar dívidas com descontos expressivos para trabalhadores de baixa renda. A novidade é a permissão para utilizar o saldo do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) para quitar débitos, com descontos que podem chegar a 90%.

Essa iniciativa, segundo estimativas do Ministério do Trabalho, deve impactar o FGTS em cerca de R$ 4,5 bilhões. A expectativa é de reativar o mercado e estimular o consumo em um cenário de desaceleração econômica, mas a medida levanta preocupações sobre a sustentabilidade do programa e o futuro financeiro dos trabalhadores.

A economista Juliana Inhasz, do Insper, expressa preocupação com a possibilidade de o Desenrola perder seu caráter excepcional. A realização de uma segunda edição do programa em um curto intervalo de tempo pode levar a população a encarar essas renegociações como uma solução permanente para o endividamento.

Risco de Dependência e Impacto no FGTS

“A gente tira um programa desse caráter excepcional e pode estar começando a criar um programa recorrente”, alertou Juliana Inhasz. Essa perspectiva preocupa instituições financeiras, pois pode gerar novas ondas de endividamento e inadimplência. Além disso, a economista aponta que as taxas de juros podem aumentar, afetando até mesmo os bons pagadores.

Inhasz avalia que a utilização do FGTS pode ser uma saída para pessoas com dívidas elevadas, mas ressalta que isso compromete a segurança financeira futura do trabalhador. “É como se a gente estivesse substituindo o consumo lá na frente pelo pagamento da dívida hoje”, explicou.

Embora o objetivo seja estimular a demanda, o trabalhador acaba perdendo uma importante reserva para o futuro. A economista reforça que o programa foca na consequência do problema, sem atacar as causas estruturais do endividamento no Brasil.

Cautela com Restrições a Apostas Esportivas

Outro ponto anunciado para o Desenrola 2.0 é a restrição de acesso a sites de apostas esportivas por um ano para os participantes. Juliana Inhasz pede cautela para que as “bets” não se tornem o bode expiatório do endividamento brasileiro. “Seria importante que o governo mostrasse dados e estudos claros sobre realmente o papel das bets nesse aumento de endividamento”, defendeu.

A especialista argumenta que o problema estrutural do endividamento no país está ligado à baixa produtividade, à baixa renda e à falta de educação financeira. Esses fatores, segundo ela, não são diretamente enfrentados pelo programa. “A gente continua fazendo um paliativo, tentando dar um tratamento para a consequência desse problema no curto prazo, mas ele continua existindo”, concluiu.