EUA e Irã: Por que o novo acordo nuclear está por um fio? Entenda o ponto de ruptura - A Folha Hoje

EUA e Irã: Por que o novo acordo nuclear está por um fio? Entenda o ponto de ruptura

O Irã apresentou uma nova proposta de negociação de paz a mediadores internacionais nesta sexta-feira (1º), mas os detalhes do documento ainda permanecem sob sigilo. Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, a pesquisadora Priscila Caneparo, professora e pós-doutora em Direito Internacional, aprofundou a análise sobre os principais entraves que dificultam o avanço das conversas entre os Estados Unidos e o Irã, um cenário que exige atenção global.

A especialista destacou que o ponto mais nevrálgico nas negociações é, sem dúvida, o programa nuclear iraniano. Para o governo do Irã, o país não pode ser impedido de desenvolver seu programa nuclear com fins pacíficos, uma posição que se fundamenta no Tratado de Não Proliferação Nuclear, do qual o Irã é signatário.

O impasse nuclear: energia pacífica versus desmantelamento completo

Priscila Caneparo explicou que o Irã reitera seu direito de possuir um programa nuclear para a geração de energia. Em contrapartida, os Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, exigem a finalização completa do programa nuclear iraniano. A pesquisadora salientou que a posição americana busca evitar que o Irã utilize o desenvolvimento nuclear para fins militares, algo que Trump, em sua visão, considera um retorno ao ponto de partida de 2018, antes do acordo firmado por Barack Obama.

A professora também apontou que a imposição de sanções contra o Irã, que se arrastam por décadas, representa um segundo ponto de atrito significativo nas negociações. Essas sanções têm um impacto considerável na economia iraniana e são um dos principais focos de discordância entre os dois países.

Outros focos de tensão e o risco de escalada

Além da questão nuclear e das sanções, a situação no Estreito de Ormuz é outro ponto de tensão. A paralisação do estreito, por onde passa grande parte do fornecimento mundial de combustíveis fósseis, teria impactos econômicos globais severos. A instabilidade na região é um fator que preocupa tanto os EUA quanto a comunidade internacional.

A pesquisadora também mencionou a situação no sul do Líbano, com os ataques israelenses, ainda sob um cessar-fogo temporário. O Irã afirmou que o Líbano precisa estar incluído nesse cessar-fogo, caso contrário, o país asiático continuará com suas ações, o que eleva ainda mais o nível de preocupação com a escalada de conflitos na região.

O que acontece se o acordo fracassar?

Questionada sobre as consequências de um eventual fracasso nas negociações, Priscila Caneparo foi enfática ao avaliar o cenário. Ela alertou para uma forte possibilidade de retomada das ameaças e ações contra o território iraniano, bem como retaliações contra países do Golfo, onde os Estados Unidos mantêm bases militares estratégicas. A escalada de tensões na região seria um desdobramento grave.

A especialista chamou a atenção para o aspecto legal interno dos EUA, onde a legislação permite intervenções militares por até 60 dias sem aprovação do Congresso. Esse prazo, segundo Priscila, se encerra nesta sexta (1º). Após esse período, o Congresso precisaria autorizar novas intervenções, mas Trump poderia argumentar que o cessar-fogo temporário impede a contagem desse prazo. “Não sei ainda o posicionamento do Congresso em relação a essa decisão e se o Trump irá respeitá-la”, afirmou a pesquisadora.

Para agravar o quadro, a Rússia anunciou a disponibilização de um contingente militar ainda maior para o Irã, tornando o cenário ainda mais complexo e imprevisível. “Infelizmente, não vejo um cenário muito positivo em relação à impossibilidade de advento desse acordo e finalização do conflito”, concluiu Priscila Caneparo, pintando um quadro de incerteza e potenciais conflitos futuros.