Irã e o Urânio Enriquecido: Entenda o Que é, Como é Feito e os Riscos de Arma Nuclear - A Folha Hoje

Irã e o Urânio Enriquecido: Entenda o Que é, Como é Feito e os Riscos de Arma Nuclear

O que é urânio enriquecido e por que ele é crucial nas tensões do Oriente Médio?

As negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irã trouxeram à tona o estoque iraniano de aproximadamente 440 quilos de urânio enriquecido a 60%. Esse material, segundo especialistas, poderia ser utilizado para a fabricação de múltiplas armas nucleares caso fosse submetido a um enriquecimento adicional.

O presidente dos EUA, Donald Trump, tem pressionado o Irã para que entregue esse urânio altamente enriquecido e interrompa qualquer novo enriquecimento, a fim de impedir o desenvolvimento de uma arma nuclear. Por outro lado, o Irã defende seu direito de enriquecer urânio para fins pacíficos e nega ter intenções de construir uma bomba atômica.

Um alto funcionário do governo Trump destacou que as exigências de Washington incluem o fim do enriquecimento de urânio, a desativação de grandes instalações de enriquecimento, a recuperação do urânio altamente enriquecido e a aceitação de um acordo mais amplo de desescalada com aliados regionais. Conforme informação divulgada pela CNN Brasil, o debate sobre o urânio enriquecido é central nas discussões diplomáticas.

Entendendo o Urânio Enriquecido: A Base da Controvérsia

O urânio enriquecido é, fundamentalmente, o urânio que teve sua proporção de um isótopo específico, o U-235 (urânio 235), aumentada. O urânio encontrado na natureza, em seu estado bruto, é composto por cerca de 0,7% de U-235 e aproximadamente 99,3% de um isótopo diferente, o U-238 (urânio 238).

O U-235 é o componente chave para o urânio enriquecido, pois ele se divide com muito mais facilidade do que o U-238, conforme explica Darya Dolzikova, pesquisadora sênior do programa de Proliferação e Política Nuclear do Instituto Royal United Services. O processo de enriquecimento visa exatamente a aumentar a porcentagem deste isótopo físsil.

“É isso que é o enriquecimento: aumentar a porcentagem de urânio 235, o isótopo físsil que pode sustentar uma reação em cadeia dentro do urânio”, afirmou Dolzikova à Reuters. Essa capacidade de sustentar uma reação em cadeia é o que o torna útil tanto para fins energéticos quanto, em níveis muito mais altos, para fins militares.

Do Reator Nuclear à Bomba: Os Diferentes Níveis de Enriquecimento

O urânio enriquecido não se destina exclusivamente a armamentos. Ele é essencial para a produção de energia nuclear em reatores civis. Para este fim, o urânio precisa conter uma concentração de U-235 entre 3% e 5%.

Já para a fabricação de uma arma nuclear, os requisitos são drasticamente diferentes. “Para uma arma nuclear, estamos falando de algo próximo de 90% de urânio 235”, explicou Dolzikova. Quando o urânio atinge 20% ou mais de U-235 em sua composição, ele é classificado como altamente enriquecido, um nível que já levanta preocupações significativas.

O Processo de Enriquecimento: Centrifugação em Alta Velocidade

Darya Dolzikova detalha que o método mais comum para o enriquecimento de urânio, e o utilizado pelo Irã, são as centrífugas. Trata-se de tubos longos que operam em altíssimas velocidades de rotação.

Essas centrífugas são interligadas em conjuntos chamados cascatas. O hexafluoreto de urânio, a forma gasosa do urânio, é então introduzido no sistema. Durante a rotação intensa, o processo separa gradualmente o U-238 do U-235.

“Então, ao fazer o hexafluoreto de urânio passar por essas cascatas de centrífugas, é assim que você começa a acumular maiores porcentagens de urânio 235 no material de saída”, descreveu Dolzikova. Esse método, repetido em inúmeras etapas, permite atingir os níveis de enriquecimento desejados.

Transporte de Urânio Enriquecido: Segurança e Complexidade

O transporte de urânio enriquecido para fins de energia nuclear, com níveis entre 3% e 5% de U-235, é uma operação rotineira em nível global. O material é movido em contêineres especializados e transportado por veículos altamente protegidos.

No entanto, o transporte de urânio altamente enriquecido, como o que o Irã possui, é consideravelmente mais complexo e arriscado. Requer recipientes muito menores, com embalagens e selagens extremamente precisas para evitar qualquer movimento interno ou a presença de gotículas de água.

“Devido à concentração de urânio 235, há um risco muito maior de criticidade, essencialmente uma explosão desse material, que não seria igual à explosão de uma arma nuclear, mas ainda assim é preocupante”, alertou Dolzikova. “Não é uma situação de simplesmente colocar no caminhão e transportar.” A incerteza sobre a localização exata e o estado do material iraniano adiciona uma camada extra de complexidade e apreensão às negociações internacionais.

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