Desenrola Rural 2.0: Alívio Chegou, Mas Crise no Campo Persiste? Entenda os Detalhes e Impactos - A Folha Hoje

Desenrola Rural 2.0: Alívio Chegou, Mas Crise no Campo Persiste? Entenda os Detalhes e Impactos

Nova fase do Desenrola Rural busca renegociar dívidas e destravar crédito para agricultores familiares, mas preocupações com a crise estrutural no campo permanecem.

A inclusão de produtores rurais no Desenrola 2.0 representa um alívio bem-vindo para muitos agricultores familiares, especialmente aqueles assentados pela reforma agrária. A iniciativa, anunciada recentemente, visa ampliar o acesso à renegociação de dívidas e, consequentemente, destravar o crédito rural em um momento de crescente pressão financeira.

No entanto, a medida surge em um cenário de deterioração das condições financeiras no campo, levantando questionamentos sobre sua capacidade de resolver um problema que muitos consideram de natureza estrutural. Dados da Serasa Experian revelam um aumento na inadimplência rural, indicando que a situação exige mais do que apenas soluções pontuais.

Apesar da boa notícia, a pergunta que fica é: o Desenrola Rural 2.0 será suficiente para tirar o setor da crise? Especialistas apontam que, enquanto o programa oferece um respiro, as causas profundas do endividamento precisam ser abordadas para garantir a sustentabilidade a longo prazo da agricultura familiar. Conforme informação divulgada pela CNN Brasil, a nova fase do programa segue os moldes de sua versão anterior, focando em dívidas do crédito rural e da dívida ativa da União.

O que muda com o Desenrola Rural 2.0?

A principal novidade desta edição do Desenrola Rural é a possibilidade de produtores que possuíam débitos com risco da União contratarem novo crédito. Anteriormente, esses agricultores ficavam impedidos de acessar novas linhas de financiamento até regularizarem suas pendências. Essa mudança é vista como um passo importante para viabilizar a regularização e o retorno ao crédito, especialmente no âmbito do Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar).

O objetivo central é permitir que esses produtores possam se reorganizar financeiramente e voltar a ter acesso a recursos essenciais para suas atividades. A Serasa Experian aponta que, no terceiro trimestre de 2025, 8,3% da população rural estava inadimplente, um aumento de 0,9 ponto percentual em relação ao ano anterior. A maioria dessas dívidas supera os R$ 100 mil.

Crise Estrutural no Campo: O Desenrola é Suficiente?

Especialistas ouvidos pela CNN Brasil alertam que, apesar do alívio imediato proporcionado pelo Desenrola Rural 2.0, a medida não ataca as causas do aumento do endividamento no campo. Filipe Denki, advogado e especialista em direito empresarial, descreve a inadimplência no agro como um problema estrutural.

Ele explica que o produtor rural enfrenta uma compressão de margens e um sistema financeiro com rigidez incompatível com os ciclos do agronegócio. A concentração das dívidas no sistema financeiro, segundo ele, evidencia a falta de instrumentos adequados de reestruturação. “Sem mecanismos mais adequados de reestruturação e alongamento de dívida, o risco é de aumento relevante de crises financeiras no setor nos próximos ciclos”, afirma.

Jansonn Mendonça Batista, advogado especializado em reestruturação empresarial, reforça essa visão, considerando o programa um alívio temporário. Ele ressalta que a expansão de prazos e a renegociação, embora relevantes, não são soluções definitivas. O cenário de inadimplência reflete uma deterioração mais ampla do ambiente financeiro, impulsionada pela volatilidade de custos.

“Sem enfrentar a raiz do problema, tais iniciativas tendem a apenas postergar um ajuste inevitável na estrutura de capital do setor”, alerta Batista. O desafio, segundo ele, vai além do alongamento de passivos, sendo crucial o reequilíbrio do endividamento com a real capacidade de geração de caixa. Há também o risco de acúmulo de passivos, com prorrogações sucessivas sem análise de viabilidade.

O Potencial de Alcance e as Próximas Discussões

Apesar das ressalvas, Marcelo Pimenta, head de agronegócio da Serasa Experian, destaca o potencial de alcance do programa. Ele acredita que a retomada da medida, que no ano anterior beneficiou cerca de 500 mil produtores, pode mais que dobrar seu impacto. A iniciativa fortalece toda a cadeia do agro ao viabilizar a renegociação de dívidas e ampliar o acesso à agricultura familiar.

Paralelamente, o governo e o Congresso Nacional discutem alternativas mais estruturais para o endividamento do setor. Uma proposta bilionária para renegociação de dívidas do agro, no valor de aproximadamente R$ 81,6 bilhões, ainda está em debate no Senado. Senadores, como Tereza Cristina, já sinalizaram a necessidade de ajustes na proposta, com a criação de grupos de trabalho para uma solução conjunta entre Executivo e Legislativo.

O objetivo é conciliar a proposta do governo com o PL 5122, que trata da securitização de dívidas rurais. A expectativa é que um consenso seja alcançado a tempo do lançamento do Plano Safra do próximo ciclo, buscando oferecer um caminho mais sustentável para a saúde financeira do agronegócio brasileiro.

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