Agronegócio enfrenta onda de Recuperações Judiciais em 2026, com mais de 539 empresas em dificuldade
O agronegócio brasileiro encerrou o primeiro trimestre de 2026 como o setor mais pressionado em termos de recuperações judiciais (RJ), segundo um relatório da RGF. Foram 539 empresas em RJ em março, um aumento de 9,3% em relação ao trimestre anterior, o maior avanço entre os principais pilares da economia nacional.
Este cenário preocupante indica um período de extrema vulnerabilidade para produtores rurais e agroindústrias, que lutam para manter suas operações em meio a um ambiente econômico desafiador. A alta nos pedidos de RJ sinaliza um endividamento elevado e dificuldades crescentes em honrar compromissos financeiros.
A situação é reforçada pelo Índice de Recuperação Judicial (IRJ), que mede a proporção de empresas em RJ por mil companhias ativas. No agro, este índice atingiu 14,42, significativamente acima da média nacional de 2,18, consolidando o setor como um foco principal de estresse financeiro no país, conforme informação divulgada pela CNN Brasil.
Juros Altos e Insumos Caros Pressionam Contas Rurais
José Afonso Leirião Filho, sócio de Agronegócios do VBSO Advogados, explica que as condições macroeconômicas são um dos principais motores dessa crise. O cenário de alta de juros, maior restrição de crédito e elevação do preço dos insumos está impactando diretamente a produção rural em diversos segmentos.
Esses fatores combinados comprimem as margens de lucro dos produtores e dificultam o acesso a capital de giro, essencial para o plantio e a colheita. A volatilidade dos preços agrícolas e os riscos climáticos também agravam a situação, tornando o planejamento financeiro ainda mais complexo.
Endividamento e Financiamento: O Desafio para 2026
A continuidade da alta nos casos de recuperação judicial é uma tendência prevista. Em 2025, já foram registradas marcas recordes de pedidos de RJ nas cadeias agroindustriais. A expectativa para 2026 era de um ano desafiador, e essa visão se mantém diante das dificuldades que produtores e agroindústrias enfrentam para controlar seu alto endividamento.
Ao mesmo tempo, o acesso a financiamento para as safras seguintes torna-se cada vez mais restrito, criando um ciclo vicioso de dificuldades financeiras. O especialista destaca que, embora não haja uma crise sistêmica aparente, diversos ramos do agro lidam com cenários específicos e desafiadores.
Cautela e Monitoramento: A Postura Recomendada
Diante deste cenário, a postura recomendada para o setor é de cautela e monitoramento constante. Agentes econômicos com alto endividamento são aconselhados a avaliar tecnicamente suas alternativas jurídicas para enfrentar uma possível crise, buscando assessoria especializada que considere as especificidades de cada caso.
Para os financiadores, é fundamental um monitoramento próximo dos indicadores econômicos e contábeis dos devedores. Essa análise permite identificar sinais de alerta precocemente e auxiliar em eventuais reestruturações ou na tomada de medidas adequadas no momento certo, garantindo maior segurança nas operações de crédito.
Centro-Oeste Sob Forte Pressão, Mato Grosso em Destaque
Regionalmente, o Centro-Oeste apresentou uma alta de 5,5% nos pedidos de recuperação judicial no primeiro trimestre de 2026. Mato Grosso, em particular, teve um avanço expressivo de 13,2% no período e 36% em um ano. Essa elevação reflete a forte exposição da região ao agronegócio e suas cadeias produtivas ligadas ao campo.
A vulnerabilidade do setor agropecuário é acentuada pela combinação de juros elevados, necessidade intensa de capital de giro, volatilidade dos preços agrícolas e riscos climáticos. Esses fatores, em conjunto, comprimem as margens e dificultam o refinanciamento de dívidas, exigindo atenção redobrada de todos os envolvidos no ecossistema do agronegócio.
